UNIVERSIDADES S.A.

 

Thiago da Hora

 

Nos últimos anos testemunhamos o surgimento de gigantes corporações alimentadas pelo otimismo do crescimento econômico nacional surgido após a crise de 2008 que abalou o mundo com o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos. Dos “gigantes nacionais” escolhidos a dedo para serem patrocinados pelo Governo, aos grupos empresariais que apostaram na economia do nosso país, o setor empresarial brasileiro passou por uma verdadeira revolução. Entre os novos players de peso que ganharam destaque durante esse período de bonança encontramos os principais grupos educacionais do país.

 

Com bolsos cheios, em sua grande maioria turbinados pelo FIES, programa de financiamento estudantil mantido pelo Governo Federal, que só em 2016 teve orçamento estimado em R$ 18 bilhões, aliado ao apetite voraz dos acionistas, os grupos educacionais multiplicaram suas unidades em ritmo nunca antes visto neste país, promovendo uma verdadeira corrida por aquisições milionárias e expansão desenfreada. Segundo dados do Censo da Educação Superior 2016 feito pelo INEP, das cerca de 2.390 instituições de ensino superior instaladas no Brasil, 87,5% são privadas. O efeito mais imediato causado por essa movimentação, e que é digno de muita comemoração, foi a queda no valor das mensalidades, o que levou a educação superior a um novo patamar, alcançando milhões de brasileiros que até então davam como impossível seu ingresso em uma universidade.

 

Por outro lado, essa mudança de cenário também trouxe um efeito não muito agradável: na ânsia de se espalharem pelo país em busca de novos clientes/alunos, as instituições decidiram abandonar a vocação educacional para incorporar a alma corporativa, passando a operar exclusivamente em busca do lucro, e nada mais além. Com essa mudança de comportamento o corte de custos virou um imperativo dentro das universidades. Grades curriculares foram revistas, prevendo a economia de tempo e sinergias entre diferentes disciplinas, o corpo docente mais qualificado, muitos com anos de dedicação às universidades, foi trocado por profissionais mais “baratos”, e as salas de aula foram abarrotadas para aproveitar mais o espaço.

 

O que deveria ser motivo de comemoração - mais pessoas chegando ao ensino superior - virou um verdadeiro caos. No cenário atual vemos corporações tendo lucros cada vez mais exorbitantes às custas de alunos descontentes com falta de estrutura e grade curricular pouco atraente, e professores despreparados ou desmotivados. O ensino? Sempre em segundo plano. A meta é o lucro. Se os alunos serão capazes de desenvolver todas as habilidades necessárias para sua profissão de escolha é outra história. Tal questão não tem lugar nas planilhas financeiras das universidades.

 

A educação, antes um instrumento de crescimento do indivíduo, passou a ser tratada como uma mera mercadoria. Novos alunos são fisgados por propagandas com celebridades globais e promoções dignas de feira de domingo. É o tudo ou nada do capitalismo dominando a mentalidade das nossas universidades. É o sistema “fordista” da produção de diplomas.

 

Essa mudança de tratamento com a educação fez surgir o que especialistas já estão chamando de “geração do diploma”. Milhares de jovens recebendo o canudo de uma das mais de 2.100 instituições privadas, muitas de qualidade duvidosa, e entrando no mercado de trabalho sem nem ao menos dominar os conhecimentos básicos que deveriam ser aprendidos em sala de aula.

 

Entre fusões e aquisições mirabolantes, as corporações de ensino deveriam dedicar esforços para rever seus processos internos e suas metodologias de ensino, abandonando o “vale-tudo” mercadológico e focando no objetivo para o qual elas nasceram: ensinar. Entregar ao mundo cidadãos capacitados com formação de qualidade será o maior lucro que elas terão.